23/3/08
Poesia - Elisa Lucinda
Elisa Lucinda O Poema do Semelhante
¨O Deus da parecença que nos costura em igualdade
que nos papel-carboniza em sentimento
que nos pluraliza que nos banaliza
por baixo e por dentro,foi este Deus que deu
destino aos meus versos,
Foi Ele quem arrancou deles a roupa de indivíduo
e deu-lhes outra de indivíduo ainda maior, embora mais justa.
Me assusta e acalma ser portadora de várias almas
de um só som comum eco ser reverberante
espelho, semelhante ser a boca
ser a dona da palavra sem dono
de tanto dono que tem.
Esse Deus sabe que alguém é apenas
o singular da palavra multidão É mundão
todo mundo beija todo mundo almeja
todo mundo deseja todo mundo chora
alguns por dentro alguns por fora
alguém sempre chega alguém sempre demora.
O Deus que cuida do não-desperdício dos poetas
deu-me essa festa de similitude
bateu-me no peito do meu amigo
encostou-me a ele em atitude de verso beijo e umbigos,
extirpou de mim o exclusivo: a solidão da bravura
a solidão do medo a solidão da usura
a solidão da coragem a solidão da bobagem
a solidão da virtude a solidão da viagem
a solidão do erro a solidão do sexo
a solidão do zelo a solidão do nexo.
O Deus soprador de carmas
deu de eu ser parecida Aparecida
santa puta criança deu de me fazer
diferente pra que eu provasse
da alegria de ser igual a toda gente
Esse Deus deu coletivo ao meu particular
sem eu nem reclamar Foi Ele, o Deus da par-essência
O Deus da essência par.
Não fosse a inteligência
da semelhança seria só o meu amor
seria só a minha dor bobinha e sem bonança
seria sozinha minha esperança ¨
criado por lucmaffra
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